sábado, 29 de março de 2014

Tensão Pré-Corrida

Saiba como controlar a ansiedade, diminuir o nervosismo e ter um sono tranquilo antes de um desafio importante.



Depois de meses de dedicação aos treinamentos, chega enfim o momento mais importante para um corredor, participar de uma prova. Porém, por mais experiente que seja o atleta, é comum dar aquele “friozinho” na barriga dias antes de um evento importante, e é preciso saber controlar a ansiedade para que todo um projeto não vá por água abaixo devido a uma noite mal dormida ou outro fator qualquer.

 “O principal motivo que provoca esse nervosismo é o medo de não conseguir um bom resultado, de não alcançar o objetivo determinado”, explica Valéria Sapienza, psicóloga esportiva da Life Psicologia e da ação social “Rugby Para Todos”, que diz que ficar tenso antes de uma prova importante não é exclusividade dos iniciantes. “A tensão pode até diminuir com o tempo, mas, por mais experiente que seja o atleta, o friozinho na barriga sempre vai existir”. 

Sinais 

Diversos sintomas podem indicar o nervosismo causado pela proximidade de uma competição. De acordo com a psicóloga Valéria, os mais comuns são: insônia, perda de sono, falta de apetite, suor excessivo nas mãos, irritabilidade e cansaço fora do comum. ”Quando se aproxima uma prova, é visível a mudança de comportamento de alguns atletas, que começam a ficar mais agitados”, afirma Enzo Amato, treinador da Way 2 Run. 

Controle a ansiedade 

Assim como existem diferentes sinais que demonstram que a pessoa está tensa antes de uma prova, os métodos para diminuir o nervosismo também são diversos. Segundo Amato, na maioria dos casos, apenas adquirir experiência e confiança durante os treinos já é suficiente para aliviar um pouco a ansiedade. “Com o passar do tempo, o atleta começa a se sentir mais seguro e o nervosismo diminui. 

O papel do treinador também é muito importante nesses casos, pois podemos sentir isso e dar algumas orientações durante os treinos”, declarou Enzo. O psicólogo João Cozac, Presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, explica que a ansiedade gerada pela tensão pré-competição se ramifica em duas partes, a ansiedade somática e a cognitiva. A somática atua no organismo como um todo e pode provocar insônia, urgência urinal, diarréia e até síndrome do pânico.

“Para aliviar este tipo de ansiedade existem técnicas de mentalização, relaxamento e respiração, que aumentam a segurança e a confiança do atleta. Mas estas técnicas variam de acordo com o perfil de cada individuo e precisam de um conhecimento específico e um acompanhamento profissional”, explica Cozac. 

Já a ansiedade cognitiva age principalmente na mente, e está ligada ao medo de não obter um bom resultado ou cumprir os objetivos traçados. “Ela surge quando os pensamentos não são direcionados para um otimismo e causam certo desconforto. O ideal é povoar a mente com pensamentos seguros e que sugerem um melhor desempenho. Não se preocupar muito com o evento, encarar como uma diversão”, explica João. 

“A pessoa precisa entender que não é profissional e por isso não deve temer por um resultado ruim. Se isso acontecer, é só levantar a cabeça e seguir treinando para a próxima prova”, completa Amato. “A pessoa também pode distrair a mente com atividades comuns de seu dia-a-dia, como ouvir musica, ver televisão, ler um livro ou qualquer outra forma de descontração que lhe é rotineira”, afirma Cozac.



RELAXA E BOA PROVA !

quinta-feira, 27 de março de 2014

Atividade física versus dor de cabeça

A lista de benefícios proporcionados pelos exercícios físicos parece não ter fim. Mas, acredite, os especialistas conseguiram descobrir mais um: eles amenizam as crises de dor de cabeça.


Não se espante caso um dia saia do consultório médico com a seguinte prescrição para as têmporas doloridas: sue a camisa, de preferência gastando a sola do tênis ou pedalando. É o que se conclui dos resultados obtidos pelo primeiro estudo epidemiológico sobre dor de cabeça realizado no Brasil. Assinado pelos neurologistas Luiz Paulo de Queiroz, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Mario Peres, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o trabalho ouviu 3 848 pessoas escolhidas aleatoriamente, de ambos os sexos, com idade entre 18 e 79 anos, em todo o país. 

O objetivo foi estimar a prevalência de enxaqueca e cefaleia — nome científico da dor de cabeça comum — entre os brasileiros. Além disso, procurou avaliar a relação entre esses tormentos e hábitos do dia a dia, como a prática regular de exercícios físicos. No final, os dados da pesquisa são um estímulo e tanto para todo mundo levantar da cadeira e se mexer — aliás, não só para quem vive com a sensação de que a testa está prestes a explodir. "Os sedentários apresentaram 43% mais enxaqueca e 100% mais cefaleia crônica, com crises diárias, do que os indivíduos que se exercitam", conta Queiroz. A explicação para esse elo entre menor incidência de dor de cabeça e malhação está nos nossos neurônios. "Os exercícios aumentam a produção de endorfinas, neurotransmissores que proporcionam bem-estar. Eles funcionam como uma morfina natural", compara o médico. 

O especialista em medicina do esporte Moisés Cohen, também da Unifesp, acrescenta: "Alguns artigos sugerem que outras substâncias liberadas durante a atividade física, como a epinefrina e os esteroides, podem estar por trás do alívio". A melhora na circulação sanguínea, que provoca um aumento da oxigenação cerebral, é mais um fator que colabora para o fim das dores. "Sem contar a diminuição do estresse", complementa a neurologista Norma Fleming, coordenadora responsável pelo Ambulatório de Cefaleia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Associação de Dor do mesmo estado. 

Como as endorfinas estão diretamente ligadas a uma menor ocorrência de crises, os exercícios mais indicados para o combate da dor de cabeça são aqueles que mais estimulam a liberação dessas substâncias — os aeróbicos, como a caminhada, a natação e a corrida de baixo impacto. "Os exercícios de fortalecimento muscular também produzem algum efeito, porém em menor grau", nota o cardiologista José Kawazoe Lazzoli, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte

"As atividades que envolvem relaxamento, como o alongamento e a ioga, e as lúdicas, como a dança de salão, também podem ajudar a diminuir os sintomas, graças ao bemestar que proporcionam", observa o neurologista e especialista em dor Eduardo Barreto, coordenador do Serviço de Neurocirurgia da Rede D’Or, que compreende hospitais e laboratório no Rio de Janeiro. Em relação à frequência, para que a melhora da dor seja flagrante, os especialistas recomendam suar a camisa três vezes por semana, entre 30 e 60 minutos. "Mas, no meu estudo, até mesmo aqueles que fizeram uma única sessão semanal de exercícios apresentaram uma diminuição nas crises", afirma Luiz Paulo de Queiroz. 

Além de privilegiar os esportes aeróbicos, a maneira como se pratica a atividade física conta muito. Se for feita de maneira incorreta, o feitiço se volta contra o feiticeiro — em vez de mitigar a dor, a malhação acaba por torná-la mais forte e, pior, pode aumentar o número de episódios de crise. "Os exercícios muito intensos ou realizados sem o devido aquecimento não são bem-vindos, especialmente para quem vive com dores de cabeça", alerta José Kawazoe Lazzoli. 

Outra: para que o esporte só produza alívio, é fundamental alimentar-se bem antes e depois dos treinos. Respirar em um ritmo normal ao exercitar o corpo é igualmente recomendação importante. A tendência é prender a respiração quando a gente se esforça em demasia porque a glote, estrutura que se localiza na laringe e que impede a entrada dos alimentos nas vias respiratórias, se fecha. Mas daí a pressão arterial se eleva, o fluxo sanguíneo em direção à cabeça cai e, ui, não demora para aquela sensação ruim pintar na testa e adjacências. Além disso, só saia correndo por aí após se submeter a uma avaliação médica. "O aval de um especialista, assim como o acompanhamento de um fisioterapeuta ou fisiatra quando o indivíduo tiver problemas posturais, é imprescindível", lembra Barreto. 

Infelizmente, nem todo mundo encara a atividade física como aliada contra as dores que atormentam a cabeça. "Existem trabalhos que, ao contrário, afirmam que a enxaqueca, em alguns casos, pode ser desencadeada pelos exercícios", conta Moisés Cohen. "Nos pacientes em que a crise é provocada pelo esporte, o problema ocorre mesmo quando ele é praticado corretamente", lamenta Norma Fleming. Ainda bem que casos assim são mais raros. "Fazer um diário da dor ajuda a identificar se esse é um dos agentes que funcionam como gatilho para o desconforto — ou se é o oposto, quer dizer, uma maneira de alívio", dá a dica Barreto. E claro: ninguém deve fazer nenhum tipo de atividade física em plena crise de enxaqueca. "Nessa situação, sim, os exercícios podem exacerbar o problema", alerta Luiz Paulo de Queiroz. Para quem não se encaixa nesse perfil — o que vale para a maioria — , a suadeira pode ser o melhor remédio.


 Numa crise, onde dói? 

O desconforto não se origina na massa cinzenta. Aliás, o cérebro, em si, não tem nervos e, portanto, é incapaz de sentir sua própria dor. Os músculos e os vasos sanguíneos da cabeça, estes sim, são bem vulneráveis, abrigando fi bras nervosas que disparam mensagens dolorosas por qualquer bobagem. O couro cabeludo, os ossos da face e as meninges, membranas que envolvem o cérebro como uma capa protetora, também são capazes de levar uma pessoa a urrar de sofrimento.


 Os benefícios do corre-corre 

1. Durante a atividade física, o organismo libera as endorfi nas, neurotransmissores que funcionam como um analgésico natural. "Elas agem bem nos centros reguladores da dor, que fi cam no tronco cerebral, na base da massa cinzenta", descreve Luiz Paulo de Queiroz. 

2. Ao movimentarmos o corpo, a circulação melhora e, de quebra, o aporte de oxigênio para a cabeça. Isso já traz um alívio. Para completar, o exercício contribui para evitar alterações no calibre dos vasos, fenômeno típico das enxaquecas. 

3. Exercitar-se ajuda a emagrecer. E, entre os diversos benefícios da perda de peso, está a diminuição na quantidade e na intensidade dos episódios de crise. Isso porque o excedente de gordura corporal eleva o nível de substâncias infl amatórias, que também estão por trás da dor de cabeça. 

4. Os exercícios diminuem o estresse e, por tabela, as famigeradas dores. Não à toa. Há uma queda nas taxas dos hormônios secretados em resposta às emoções negativas, que são um gatilho para o problema. Sem falar na diminuição da tensão muscular, outra que só atrapalha. 

O jeito certo de se exercitar 
Comece devagar, principalmente se você é um iniciante. Não se esqueça de alongar-se, antes e depois da malhação, e de fazer um aquecimento. Procure o tipo de exercício que mais lhe dá prazer para que ele não se transforme em mais uma fonte de estresse. 

Nem pense em começar a se mexer antes de visitar um médico. Com esse zelo, males preexistentes, como eventuais problemas de coração, poderão ser detectados, impedindo ocorrências graves. E repita a avaliação periodicamente. 

Três vezes por semana, por cerca de 30 minutos — essa é a recomendação básica para que o organismo desfrute dos benefícios da atividade. Conforme o tempo vai passando, é possível aumentar esse período. 

Uma hora e meia antes do treino, coma uma fonte proteica, que ajuda a recuperar e preservar os músculos. Uma hora antes, ingira carboidratos como os dos pães, que contribuem para a queima de açúcares e gordura durante o exercício. Depois da aula, faça um lanche com os dois nutrientes. Ah, hidrate-se o tempo todo.


Erros dolorosos 

Ir com muita sede ao pote logo no primeiro treino decididamente não é uma boa ideia. As chances de acordar quebrado no dia seguinte e só conseguir voltar à academia depois de pelo menos uma semana são grandes. 

Malhar de estômago vazio, assim como passar muito tempo sem comer após a atividade, é uma roubada. Aliás, o jejum por mais de três horas favorece as dores de cabeça. Com glicose de menos no sangue, os vasos tendem a se contrair. 

Por outro lado, exercitar-se apenas por alguns minutos e voltar a treinar só depois de muito tempo também não é legal. Para obter todas as benesses da atividade física, o certo é manter a frequência regular. 

A pressa de começar a se exercitar é tão grande que perder tempo em uma consulta médica está fora de cogitação? Cuidado. Isso pode causar uma dor de cabeça ainda maior se você tiver algum problema mais grave enquanto se exercita.

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Erros na hora de correr podem causar lombalgia



O número de pessoas que pratica corridas de rua no Brasil vêm aumentando ano a ano. Até o início desta década, eram menos de 100 provas anuais. Atualmente, são mais de 600 corridas todos os anos. Estima-se que existam no país mais de quatro milhões de corredores, sendo que pelo menos 300 mil disputam corridas de rua. 

A corrida é um esporte que não exige habilidade específica, como outras modalidades, por isso qualquer um, teoricamente, pode iniciar treinos de corrida, ou até mesmo participar de uma prova. 

Entretanto, é preciso ter boas condições de saúde e um preparo físico necessário para iniciar a corrida, como também qualquer tipo de atividade física. 


Prevenção

lombalgia (dor coluna lombar) é uma das principais queixas entre os corredores. A corrida é uma atividade física que depende da ação da musculatura do tronco para mantê-lo dentro de uma postura correta durante um longo período de tempo. A coluna lombar funciona como ponte de que transmite forças entre os membros inferiores e o tronco, fazendo movimentos básicos de flexão, extensão e rotação. 

Por isso a dor ocorre por um problema mecânico. Os músculos não estão suficientemente alongados para permitir uma amplitude total de movimentos do tronco e quadril, e, dessa forma, sofrem mínimas lesões por estiramento durante posturas inadequadas ou movimentos bruscos, resultando em uma resposta de espasmo muscular. 

Vários fatores contribuem para o surgimento da lombalgia mecânica em corredores, como o desequilíbrio das forças entre os grupos musculares flexores e extensores do tronco; cargas repetidas ou excessivas na coluna lombar; vícios de postura durante a corrida; menor flexibilidade nos grupos musculares do tronco e membros inferiores; intervalos curtos de descanso entre treinos; fadiga muscular; aumento do treinamento; além de treino em pisos rígidos e tênis inadequado.  

A prevenção das lombalgias se dá através de exercícios de alongamento que devem ser feitos de forma contínua e progressiva, sem sobressaltos, até o limite da dor, quando o atleta deve permanecer na posição alongada durante 20 a 30 segundos, preferencialmente sentado e trabalhando tanto os músculos dos membros superiores quanto inferiores. 



Os exercícios de fortalecimento devem envolver a musculatura paravertebral, pélvica como também toda musculatura abdominal (musculatura do CORE). Estes exercícios, são importantíssimos para a proteção da coluna, além disso, o excesso de peso na região abdominal é outra causa na ocorrência das lombalgias, pois muda o centro de gravidade do corpo, exercendo sobrecarga constante sobre a lombar e facilitando o surgimento de lesões, principalmente nas atividades de impacto como a corrida. Se suas dores forem persistentes, deverá procurar seu médico. 

domingo, 23 de março de 2014

JÁ FEZ SEU CHECK UP CORREDOR !



MUITAS PESSOAS PENSAM QUE BASTAM CALÇAR UM PAR DE TÊNIS E SAIR POR AÍ CORRENDO, NÃO É BEM ASSIM...LEIAM O TEXTO ABAIXO REFLITAM E REPASSEM AOS SEU CONTATOS DE CORREDORES.


Muito tem se falado, atualmente, sobre a prática correta de exercícios físicos e como eles devem ser feitos de forma segura e sem riscos à saúde. O acompanhamento médico é considerado essencial para qualquer prática esportiva, sendo ela amadora ou profissional. Para as atividades físicas em academias de ginástica também são necessários avaliações, já que cada pessoa possui diferentes metabolismos.
O que muitos não sabem é que toda atividade física mais intensa deve ser previamente definida por uma equipe médica que, para traçar o perfil metabólico do esportista iniciante ou profissional, realizará exames clínicos e esportivos para indicar a intensidade, periodicidade e tempo de cada exercício.

De acordo com o cardiologista e coordenador do Sport Check-up do HCor, Dr. Nabil Ghorayeb, o início da atividade física sem um monitoramento prévio pode trazer diversos riscos à saúde. “Dependendo do nível de intensidade e de exigência física, seja ela competitiva ou não, a atividade física desencadeia uma série de fenômenos metabólicos variados e intensos. Se a pessoa tiver alguma doença silenciosa ou inicial, esse exercício físico possivelmente elevará os riscos de complicações”, explica o cardiologista.

A realização de um Check-up esportivo antes de iniciar a prática de atividades físicas tem crescido nos últimos anos, pois é cada vez maior o número de pessoas que entendem que as avaliações clínica, física e cardiológica reduzem os riscos de paradas cardiorespiratórias e outros problemas de saúde. Porém, o número é mais expressivo em pacientes que passam por reabilitações cardiopulmonares, que realizam o acompanhamento pós-cirurgia cardíaca ou que sofrem ou passaram por problemas cardiológicos.

É necessário que essa visão de um Check-up esportivo seja mudada, pois todos os que praticam esportes e exercícios necessitam fazer uma avaliação prévia e um acompanhamento dessas atividades. “No HCor é oferecido esse serviço de forma especializada, com tecnologia e médicos especializados para atender atletas profissionais, amadores e esportistas de fim de semana. Prova disto são os check-ups que realizamos anualmente nos jogadores do Palmeiras, Santos e São Paulo, federações de vôlei e atletismo, entre outras, em que traçamos o perfil dos atletas e suas condições físicas antes do início da temporada”, finaliza Ghorayeb.

Alguns Mitos e Verdades Sobre a Corrida!




1 – A corrida beneficia o sistema cardiovascular de uma pessoa, ao passo que prejudica seu sistema esquelético – MITO.

A corrida realmente melhora a capacidade do aparelho cardiovascular, mas, ao contrário do que era consenso entre os profissionais da área há alguns anos, a corrida não provoca efeitos deletérios no sistema esquelético*, sendo que hoje já se sabe que o impacto produzido pela mesma ajuda na deposição de cálcio nos ossos, fortalecendo-os. 

*considerando o atleta dentro do seu peso e com tênis adequado. 

2 – A dor é sempre um sinal de alerta – VERDADE.

 Ainda que não seja sempre um sinal de que algo sério se avizinha, a dor deve ser observada com cuidado, já que pode ser desde um sinal de cansaço a algo mais importante. Dores insistentes devem ser pesquisadas. 

3 – Ausência de dor na corrida é sempre sinal de saúde – MITO. 

O melhor exemplo são as mortes súbitas. De um modo geral a frase é verdadeira, mas a possibilidade da predisposição a determinadas doenças requer a visita a um médico antes de iniciar as atividades. 

4 – A corrida é uma forma eficiente de se obter um ótimo condicionamento físico – VERDADE.

A corrida melhora o condicionamento cardiovascular, ajuda a controlar o peso corporal e é uma ótima terapia. 

5 – Percursos de terra são mais macios que os de asfalto – VERDADE. 

A vantagem do asfalto, porém, é a menor possibilidade de buracos e pedras soltas. 

6 – Condicionamento em asfalto é o suficiente para todo o tipo de corrida – MITO. 

Muitos atletas treinam exclusivamente no asfalto e por isso estão mais suscetíveis a lesões em corridas de trilhas ou em areia. 

7 – A corrida só é benéfica se praticada de maneira planejada – VERDADE. 

Qualquer atividade física para proporcionar melhoras deve ser praticada de forma contínua e com uma sobrecarga estruturada, o que requer um mínimo de planejamento. 

8 – Um dos maiores inimigos do corredor é o impacto repetitivo da corrida – MITO. 

O impacto em si não é o problema; tênis inadequado ou piso irregular é o que farão da repetição dos impactos um potencializador de problemas. 

9 – Correr carregando pesos nas mãos ajuda a condicionar – MITO. 

Cada coisa na sua vez. Não corra levando pesos. Os pesos desequilibram o corpo forçando a corrida em uma postura que pode trazer problemas. 

10 – Piso adequado e um par de tênis de boa qualidade são indispensáveis – Verdade. 

A corrida é um esporte barato, que requer pouco equipamento, o tênis de boa qualidade é fundamental e o piso adequado é uma questão de bom senso. Aqui cabe uma observação. Tênis de boa qualidade não é sinônimo de tênis caro. 

11 – O ciclismo condiciona o corpo para a corrida – MITO. 

O condicionamento físico pode ser obtido através de diversos esportes: escalada artificial, natação, ciclismo, corrida, enfim, o esporte de um modo geral, condiciona o organismo, mas o condicionamento específico para um esporte só é obtido com o treino deste. 

12 – Corrida no plano condiciona do mesmo jeito em descidas ou em subidas – MITO. 

De forma alguma, e aqui vai um recado para aqueles que querem correr melhor e têm preguiça de encarar os treinamentos na ladeira. 

13 – O tempo perdido na subida é recuperado na descida – MITO. 

A relação não é proporcional. De um modo geral, o tempo perdido na subida não é recuperado na descida. 

14 – Diminuir o volume de treinamento algumas semanas antes das competições é benéfico – VERDADE.

 Mas é importante frisar que a diminuição deve ser mais no volume do que na intensidade. 

15 – A hidratação é indispensável em corridas longas – VERDADE. 

O resultado em corridas curtas não vai ser comprometido se o atleta não se reidratar durante a prova. 


16 – O uso de energético é indispensável em corridas longas – VERDADE. 

Apesar de muitos atletas resistirem, está provado que os estoques energéticos ficam seriamente comprometidos após 2 horas de atividade intensa, o que compromete a performance.

 
17 – O alongamento antes de uma competição melhora a performance – MITO. 

O alongamento não é fator que altere o desempenho do atleta na corrida. O importante é ficar claro que, o que não deve faltar é o aquecimento, onde podem ser inseridos alguns exercícios de alongamento. 

18 – As dores do corredor acontecem por causa do ácido lático – MITO. 

As dores do corredor ocorrem por rompimento de micro fibras musculares em conseqüência do esforço, que inflamam e provocam dor. 

19 – É preciso correr todo dia pra conseguir um bom condicionamento – MITO. 

O bom condicionamento é conseguido já com três sessões de treino por semana. Treinar a mais aumenta a competitividade, mas esse ganho é proporcionalmente menor por dia a mais de treino. O que aumenta de forma proporcional aos dias a mais de treino, no entanto, são as chances de lesão. 

20 – Correr em jejum ajuda a emagrecer – MITO. 

Correr em jejum é contra-indicado por comprometer a saúde de um modo geral. O corredor em jejum está em débito energético, que comprometerá a qualidade de seu treino. 


21 – Correr agasalhado ajuda a perder peso – MITO. 

Correr agasalhado provoca um aumento perigoso de temperatura no organismo. O que o corredor perde durante essa prática perigosa é água, reposta no primeiro copo de água ingerido. 


22 – As cãibras ocorrem por falta de potássio – MITO. 

As causas da cãibra vão além da falta de potássio. Outros eletrólitos estão envolvidos no processo, assim como o nível de condicionamento do atleta e influências patológicas. A falta do potássio pode, em alguns casos, ser a causa, mas a relação não é sempre verdadeira. Muitos técnicos torcem o nariz para a prática, até certo ponto comum, do atleta se encher de bananas na intenção de prevenir cãibras. 

23 – Massagem com pomadas é o melhor remédio logo após uma contusão – MITO

Nem com, nem sem pomada. A massagem pode agravar o quadro. O indicado é gelo e consulta médico, se for o caso.


sábado, 22 de março de 2014

As corridas de longa distância: prazer, excitação e êxtase

 Neste texto, discutiremos, a partir de nossas observações e dos discursos dos atletas pesquisados, aspectos relacionados à emoção, à excitação e ao prazer de praticar corrida de longa distância e de participar dessas corridas.



Introdução


    Nossa proposta nesse artigo é trazermos aspectos teóricos e metodológicos que considere e compreenda o sujeito envolvido na prática do esporte de rendimento, para além do consumo, do mercantilismo e da competição. Nesse sentido, aspectos como o prazer, emoção e excitação são importantes na análise da prática esportiva. A partir desse olhar, acreditamos na possibilidade de podermos compreender como o sujeito-atleta se produz e é produzido diante dos diversos aparatos sociais que o cercam. Considerando o pressuposto que os atletas envolvidos na prática do esporte de rendimento, em especial o atletismo, afirma-o como uma marca importante nas suas vidas, por isso a necessidade compreender melhor os sentidos que estes atletas estão produzindo, de que modo se pensam e são pensados enquanto atletas.

    O esporte pode trazer em seu seio, outras vertentes de análises e de compreensão como encontramos em Elias (1992) quando relaciona essa prática a fortes experimentações de emoções e excitação. Parece-nos evidente que as atividades de lazer sejam elas de caráter individual ou coletivo, desenvolvidas nas sociedades ditas complexas e civilizadas (a nossa, por exemplo), exerçam exigências evolutivas no modo de ser das atividades de lazer, entre elas o esporte, para que possam dar conta das novas formas de vida, para atender as suas necessidades emocionais, de excitação, sentimentais entre outras. A excitação que os indivíduos procuram no seu lazer, especificamente no esporte, passa a ser compreendido como singular, como veremos no decorrer deste artigo, tratando-se em geral de uma excitação agradável.

A busca do prazer no esporte: da teoria a prática

    Refletindo sobre o propósito da vida humana – e incluindo nessa reflexão o esporte –, segundo Freud (1978), o princípio do prazer, como força que move toda a vida humana, terá que superar limitações, sejam elas da constituição interna do sujeito, sejam configuradas pelas ameaças e fontes de sofrimento que o mundo externo proporciona, dificultando a realização e a efetivação da felicidade. Tudo é planejado contra a realização dessa pulsão de vida. Regula-se a fonte social do sofrimento pelas relações sociais, estas sendo o primeiro momento da civilização, pautadas e valorizadas pela capacidade de efetivar as restrições à liberdade individual, que, em sua origem, é ilimitada. A partir dessas restrições, o ser humano passa a viver em permanente conflito com o mundo dito civilizado.
    Dessa maneira, o ser humano é constituído e transformado em um ser social, que, ao ser aprisionado nos moldes da civilização, mantém-se diante de certa ordem, pagando um custo muito alto, com a restrição da liberdade. Por perder a liberdade, ele entra em estado conflituoso e constante com a dita civilização, mas é assim que evolui e que é aceito pelo grupo social.

    Elias (1994) esclarece-nos a respeito do conceito de civilização, utilizando, para isso, um tratado de 1530 intitulado De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças). Esse tratado, elaborado por Erasmo de Rotterdam, dá força a uma palavra bastante antiga originada de civilitas e depois interpretada por várias línguas. De civilitate morum puerilium foi dedicado a um menino nobre, filho de príncipe, aparentemente sem maiores pretensões, mas causou mudanças sociais, estabelecendo um novo modelo de comportamento para as pessoas, que incluía desde a maneira de olhar, passando por posturas na mesa, asseio, modos de sentar, de lavar as mãos antes das refeições, etc. O tratado chama a atenção por pontuar a diferença entre as atitudes bárbaras, ou incivilizadas, e as ditas civilizadas.

    Dessa maneira, a sociedade sofre mudança, começa aos poucos, a suprimir um componente importante nas pessoas, que é o prazer, ao mesmo tempo que engendra a ansiedade, tornando os prazeres privados secretos e aumentando a proibição social de muitos impulsos. Chega-se à situação em que “[...] os jovens têm apenas uma alternativa: submeter-se ao padrão de comportamento exigido pela sociedade, ou ser excluído da vida num ‘ambiente decente’” (ELIAS, 1994, p. 146).

    Pode-se perceber que essas mudanças acontecem através do que será denominado de processo civilizador. Entretanto, não podemos acreditar que esse processo tenha acontecido de maneira planejada. Segundo Elias (1993, p. 193), a civilização “[...] não é, nem o é a racionalização, um produto da ‘ratio’ humana ou o resultado de um planejamento calculado em longo prazo”. Mesmo tendo acontecido sem planejamento, o processo civilizador não deixou de ter certo tipo de ordem, o que é demonstrado pelos diversos controles impostos aos indivíduos e do modo como isso, através de outras pessoas, é convertido em autocontrole.

    Na verdade, isso não foi uma ideia concebida por pessoas isoladas nem dotadas de tal perspectiva a longo prazo. O que se pode colocar como evidente é que
    O processo civilizador nada mais é do que o problema geral de mudanças históricas. Tomada como um todo, essa mudança não foi ‘racionalmente’planejada, mas tão pouco se reduziu ao aparecimento e desaparecimento aleatórios de modelos desordenados (ELIAS, 1993, p. 194).
    O que ocorre é uma peculiar estabilidade do aparato do autocontrole mental como traço decisivo, uma vez que a expressão dos sentimentos já não pode mais ser saboreada sem ressalvas ou sem reflexão sobre suas possíveis consequências. Isso porque, embutida nos hábitos de todo ser humano civilizado, mantém-se, da maneira mais estreita possível, uma relação entre a monopolização da força física e a crescente estabilidade dos órgãos centrais da sociedade.

    Elias e Dunnig (1992, p. 125) observam que, apesar de todo esse aparato de controle imposto pela sociedade, ela segue com a tendência para experimentação de fortes emoções, mesmo que sejam de caráter não duradouro, mimético (o termo não está sendo utilizado em seu sentido literal, de imitativo). De certa maneira, na teoria elisiana, o termo mimético é usado num sentido específico, podendo ser aplicado em referência à “[...] relação entre os sentimentos miméticos e as situações sérias específicas da vida”. O que pode ocorrer em situações sérias da vida é que os indivíduos venham a perder o controle e se tornem um perigo para si mesmos ou para os outros ao seu redor. Na excitação mimética, essas coisas podem não acontecer, porque ela segue numa perspectiva social e individual, desprovida de perigo, e pode ter um efeito catártico, possibilitando aos indivíduos experimentarem a explosão de emoções em público, um tipo de excitação que não coloca em risco a ordem social determinada, diferentemente do que ocorre nas situações sérias da vida.

    Por isso a excitação que as pessoas buscam no lazer pode ser interpretada como única. Em geral, ela acontece de maneira agradável, encontrando-se nas sociedades contemporâneas vários fatores que podem levar à excitação, entre eles o esporte. Nosso interesse é discutir sobre a excitação e o prazer que os atletas sentem em praticar, especificamente, corridas de longa distância, tendo em vista que eles fazem desses encontros um espaço propício para deixarem extrapolarem suas emoções sem constrangimento, ressentimentos e culpabilidades. Adriana diz: “O atletismo é uma coisa prazerosa, porque me ajuda a relaxar”.

    Nem sempre isso acontece sem que o corpo passe por sofrimentos e dores, mas também não se pode negar que esses sofrimentos e essas dores provocam prazer e excitação nos sujeitos-atletas. Observamos esse tipo de sofrimento durante um desafio de seis horas realizado em Natal/RN. Correr seis horas praticamente ininterruptas, parando apenas algumas vezes, rapidamente, para hidratação não foi uma tarefa das mais simples: exigiu toda uma preparação física e psicológica adequada, que, segundo os atletas, foi feita por eles mesmos, pois não dispunham de psicólogo nem de boa alimentação. O desafio começou às 10h da manhã e terminou às 16h, sob uma temperatura bastante alta. Mesmo assim, os participantes se mantiveram motivados a ir até o final da corrida.

    Mesmo sabendo do risco de morte que havia, segundo Josenaldo,1 as pessoas traçam objetivos como, por exemplo: “terminar a prova, conseguir terminar as seis horas correndo”. Muitos colocam a superação de si mesmos em primeiro plano, esquecendo os outros como adversários.

    Josenaldo e Sheyla fizeram, respectivamente, os comentários seguintes:
    Eu penso assim: eu acho que esse desafio... muita gente vai para buscar a própria superação, tentar superar os seus limites [...] Essa maratona, ali, para ele, é uma boa, mas é uma prova muito desgastante. Pois é bom ir com precaução, para não sobrecarregar demais. É uma prova muito desgastante, principalmente pelo horário que elas são realizadas.
    Superação... passa tudo no início da prova. Você começa a correr, você tá bem. Quando passa assim... três horas, a partir dali você já sente o cansaço, porque é visível, né? Você pensa assim: ‘Meu Deus! ainda falta a metade!’ Dá um desespero [risos]. Aí, conforme vai passando o tempo, tem as prévias, eles [os árbitros] vão falando de hora em hora. Aí, você... o pessoal desistindo de um lado, dá vontade de você desistir também. Porque você vê: Fulano já foi, então chega a minha hora também?. Mas, por outro lado, vem aquele que aparece [sopra] no seu ouvido: ‘Poxa! [risos] você pode, você não é tão pequeno. Tem que ir até o final, entendeu?!’.
    Mesmo havendo premiação em dinheiro, esta não foi muito significativa, em relação ao prazer do desafio a si mesmo, para alguns atletas realizarem a prova e conseguirem chegar até o final. Diz a atleta Sheyla:
    Eu cheguei a ganhar. Ganhei, mas é pouco. Cheguei em terceiro lugar, ganhei R$ 150,00. Não é pelo dinheiro, jamais, porque não vale a pena: perdi todas as unhas [risos], estraguei os meus tênis, perdi o dia de sábado.
    A quantia ganha pela atleta não dava para ela comprar um tênis adequado para esse tipo de corrida. Ela foi uma das que, mesmo chegando ao final da corrida, teve que passar por situações incompreensíveis por quem assiste. Os próprios familiares dos atletas que estavam vendo a prova achavam aquilo uma loucura. Mas os atletas acham que tudo isso vale a pena, como enfatiza Sheyla:
    Pra quem olha, fecha os olhos. Mas, para mim, eu ganhei, foi um desafio que eu consegui, foi um desafio mesmo. A palavra já diz tudo: a prova é um ‘desafio’. Foi dura, foi dureza, mas ‘eu vou conseguir! eu vou conseguir!’ Mas foi muito sofrido. Quando acabou a prova, dever cumprido.
    Para Sheyla, o atletismo, a corrida, “é uma coisa!... é uma adrenalina!... Mexe com muita coisa!”. O mexer com muita coisa é o que fez essa atleta correr a última hora de uma prova descalça, como vimos anteriormente. A compensação é terminar, é ir até o final, provar a emoção de correr e desafiar-se, seja num desafio de seis horas ou numa meia maratona. Ela diz: “[Estar lá] correndo – me arrepio todinha! – é uma coisa que mexe comigo, entendeu? Então eu gosto muito”.
    Essa adrenalina que os atletas afirmam sentir quando correm nos faz lembrar de Deleuze e Guattari (1996, p. 9) quando trazem a ideia do que venha a ser um Corpo sem Órgão. Para os autores, o CsO2 “Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Ao Corpo sem Órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite”. São esses corpos que desfilam por aí, seja costurados, seja vitrificados, dançarinos – e por que não incluir os corredores de longa distância? –, muitas vezes, plenos de alegria e de êxtase! Vive-se na necessidade constante de encontrar o CsO, e saber “[...] fazê-lo é uma questão de vida e de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria” (DELEUZE e GUATTARI, 1996, p. 11).

    Esse corpo é construído de tal maneira que só as intensidades interessam, mesmo que sejam passageiras, como observamos nos atletas. Ele cria de forma diferente suas ações e as condições de vivenciá-las.

    Ao falarem dessa adrenalina que o esporte proporciona, mesmo com o cansaço que ele provoca, as dores, os atletas o fazem entre risos e com um ar de emoção que só o prazer pode justificar. Para um deles, Eudésio, o atletismo não é um esporte que traz “sacrifício. Isso é uma alegria, bicho!”. Continua ele: “Pra quem não sabe o que é isso, pra quem não tá acostumado... ‘ Você é louco!’. Ó loucura boa!... é um prazer!...”. Os atletas demonstram que praticar atletismo, corridas de longa distância, não só exige esforço físico, representa, para eles, um encontro consigo mesmos, uma superação saudável e prazerosa.
    Esse prazer não se desliga do desejo; é aliviado na
    [...] alegria imanente do desejo, como se ele se preenchesse de si mesmo e de suas contemplações, fato que não implica falta alguma, impossibilidade alguma, que não se equipara e que também não se mede pelo prazer, posto que é esta alegria que distribuirá as intensidades de prazer e impedirá que sejam penetradas de angústia, de vergonha, de culpa (DELEUZE e GUATTARI, 1996, p. 16).
    Há, portanto, atletas que encontram na prática do esporte momentos que eles afirmam ser de pleno prazer, nos quais o desejo é aliviado. Muitas vezes, eles terminam a corrida cansados, alguns estropiados, pés calejados, cheios de dores, ou até vomitando. Eles experimentam o que os autores citados chamam de positividade do desejo, na qual a junção desejo-prazer não pode ser reduzida a nenhuma lei. Isso só se torna possível através da “lei da descarga”. É importante ressaltar que os atletas não se culpam, não reclamam das “torturas” que precisam passar para estar no esporte.
    Tais intensidades constroem um CsO na figura de um corpo drogado, que busca seu prazer nas drogas, fazendo-as seu alimento. Os atletas parecem buscar no esporte essa droga que lhes falta e que, quando é obtida, lhes serve de alimento para um corpo que precisa ser preenchido, saciado. Para Eudésio, praticar esporte, atletismo, é drogar-se. Ele se considera um viciado: “É um vício [...] é uma coisa que você sente falta se você parar um dia [...] É endorfina, anestesia”. Batista também afirma que, quando passa um dia sem treinar, sente falta. Ele precisa “dessa anestesia, dessa morfina, dessa endorfina. O corpo fica viciado”.

    Observamos nesses atletas a busca permanente da experimentação do corpo na atividade esportiva, vivenciada de uma maneira que lhes é favorável, sem que eles deixem de lado as intensidades.
    Essas intensidades fazem com que as dores corporais, no esporte, pelo que observamos, sejam uma constante. Muitos daqueles com quem tivemos oportunidade de conviver, de conversar, já sentiram dor ou continuam sentindo no seu dia a dia, tendo que conviver com ela, de alguma maneira, para não terem de abrir mão de continuar treinando e participando das corridas.

    O sofrimento e a dor que o corpo sofre durante a prática do esporte são entendidos como positivos. Os atletas encontram no sofrimento e na dor um desafio a mais, transformando dor em prazer e passando, muitas vezes, por situações extremas, como comentam respectivamente, Josenaldo e Sheyla,:
    Eu acho que é importante você saber conviver com a dor, porque ali é uma dor de um esforço físico, então não é aquela coisa de machucado. Então, eu acho que todo atleta tem aqueles momentos de dores. Às vezes os excessos de trabalho, às vezes o esforço físico você sente.
    A dor é uma constante em qualquer corredor. Se tiver treinando bem ele tá sentindo alguma coisa. Não quer dizer que tenha alguma coisa errado não, é porque é comum mesmo. É convivência: vai ter que aprender a conviver com a dor, né?
    A dor que os atletas sentem ao praticar esporte deve ser compreendida como uma experiência que faz parte de uma construção subjetiva. Embora singular para quem a sente, como qualquer experiência humana traz a possibilidade de ser compartilhada, em seu significado, numa realidade coletiva – ainda mais quando estamos falando de atletas que estão sempre se refazendo no coletivo, mesmo que possuam interesses individuais na prática desse esporte. Os momentos de dor e de cansaço são sempre compartilhados com os outros, quer seja apenas para desabafar quer seja para receber algum conforto. A dor ultrapassa o fenômeno neurofisiológico: admite-se, cada vez mais, que, além dos componentes neurofisiológicos e psíquicos, existam os componentes sociais, que vão definir como se deve sentir e deixar transfigurar isso para os outros.
    Para alguns atletas, a dor tem um sentido de desafio e de superação, que os faz resistir a momentos difíceis durante os treinos e as corridas, como afirma Francimário:
    Com as dores? Rapaz, eu não sei nem explicar a você como é isso aí. Porque as pessoas quando vai fazer alguma coisa é porque suporta aquilo ali, entendeu? Pronto: você faz um treinamento forte hoje de noite, no outro dia eu não vou deixar de treinar, porque eu tô doído; aí eu vou e treino. Eu não vou deixar de terminar um trabalho: eu treino, mesmo estando doído. Finda você fazendo aquilo ali, e faz com seu corpo. A força de vontade é tão grande que você supera aquele cansaço e aquela dor; supera tudo.
    A dor, como realidade social, é simbolizada, ainda, mediante os distintos lugares sociais dos indivíduos. Dentro de uma mesma sociedade, os indivíduos têm condições sociais diferenciadas, de acordo com as clivagens sociais, entre elas as de gênero, de classe e de etnia. Pode haver maior ou menor tolerância à dor, conforme aquilo que do indivíduo se espera, segundo seu lugar social.
    Sheyla afirma que a dor é constante em sua vida de atleta:
    Mas assim... durante a corrida que eu tô sentindo muita dor, às vezes eu choro durante a corrida – ‘Nunca mais eu venho, nunca mais!’ –. É aquela de desespero, né? É um sofrimento. E, quando acaba a corrida, que passa o sofrimento, já tô pensando na próxima corrida.
    A dor, nos atletas, pode ser compreendida sob diversos ângulos. Vejamos o que comentam Josenaldo e André, respectivamene:
    Quando começava a aquecer, começava a sentir aquela dor no joelho. Então, eu parei um tempo, para me recuperar. E depois disso acabei ignorando a dor: achei que aquilo ali era só psicologicamente. Acho que às vezes você psicologicamente coloca aquilo na cabeça.
    Lógico que não é uma dor que me impede de treinar. Se fosse uma dor que eu não tivesse como suportar, eu ia ter que ficar tomando remédio ou algum analgésico pra treinar. Eu não faria isso, é uma dor suportável.
    Compreendemos, assim, que, ao se expressar em tempos e lugares diferentes, o corpo passa a representar não apenas aquilo que se revela biológico no homem, mas também as paixões, as sensibilidades, os saberes, marcas, trejeitos culturais, imposições, os prazeres, as excitações e etc.
    O esporte é uma dessas estruturas sociais que demarcam um momento histórico, com suas especificidades e valores, como ocorre, por exemplo, na construção do sofrimento e na dor corporal com que os atletas convivem no dia-a-dia ao praticarem o atletismo com o objetivo de poderem participar de corridas de longa distância, sem abrirem mão do prazer e da busca da felicidade, mesmo que para isso, tenham que sacrificar o corpo, como vimos, anteriormente, nos diversos discursos dos atletas.

    Nesse sentido, Elias (1992) traz uma contribuição importante para a compreensão do esporte e do lazer, como momentos propícios a excitação, prazer e emoções, quando diz que as atividades miméticas quebram a rotina da vida cotidiana, geralmente controlada. A atividade mimética seria um passaporte para se sair da rotina, o que só no momento do lazer é possível. Este, sob o ponto de vista do autor, corresponderia a uma esfera da vida dos indivíduos, podendo oferecer a experimentação agradável das emoções, ao mesmo tempo que se constitui numa excitação direcionada para o divertimento, experimentada em público, compartilhada com outras pessoas, e com aprovação social.

    Mesmo o esporte contemporâneo sendo configurado por essas regras e normas, para que apareça como uma prática social aceitável ele também se estabelece como um modo de se descarregarem as tensões, os sentimentos gerados no dia-a-dia, empurrando os indivíduos para o autocontrole. Na contemporaneidade, o indivíduo tem certa tendência para refrear seus impulsos de excitação. Mesmo assim, existem espaços nos quais ela pode ser exercida. Não é mais o encontro religioso que proporciona o relaxamento, a excitação; no lazer, o relaxamento está noutros espaços, noutras experiências, experimentando-se outros tipos de emoções, novos tipos de excitação.

    Observando-se bem a exposição desses atletas a situações de cansaço, de esforço nas corridas, fica explicada a profunda satisfação que eles sentem e exteriorizam. Assis comenta, de maneira contundente, essa situação vivida no esporte: “Quem participa é sofrido, mas quem participa do atletismo não quer largar fácil”. Para Sheyla, “As pessoas que participam agora do atletismo é um povo apaixonado. Quem corre é apaixonado: é um esporte muito pobre, duro, é de quem gosta mesmo”.

    Essa emoção tem forte identificação com os diversos grupos que se formam em plena contemporaneidade. O esporte é apenas um exemplo. Os atletas se unem não só para conviver nos momentos das corridas mas também para vibrar e para compartilhar emoções, na tentativa de fugir da cotidianidade social, organizada e racionalizada em demasia.
Considerações finais
    Parece-nos evidente que as atividades de lazer – sejam elas de caráter individual ou coletivo – desenvolvidas nas sociedades ditas complexas e civilizadas como a nossa têm passado por uma evolução no modo de ser, para poderem dar conta das novas formas de vida, para atenderem às necessidades emocionais, de excitação, de prazer, sentimentais, entre outras, dos indivíduos.


    Com base nas falas dos atletas e no que observamos que eles se revelaram apaixonados pelo atletismo, podemos afirmar que o prazer da prática ou do espetáculo esportivo deve-se não ao descanso e ao relaxamento proporcionados por uma situação de lazer (entendida, no senso comum sociológico, como complementar e antitética em relação ao trabalho), mas à excitação e à tensão produzidas pelo enfrentamento individual ou coletivo de corpos, pela excitação agradável, a busca do êxtase, mesmo os atletas tendo que passar por momentos de sofrimento corporal, dores e cansaços.


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